terça-feira, 1 de janeiro de 2008

China se transforma na chaminé do mundo - parte 1


01/01/2008
China se transforma na chaminé do mundo - parte 1

Joseph Kahn e Mark Landler*
Em Handan, China


Quando moradores desta cidade do norte da China penduram suas roupas para secar, a fuligem preta da vizinha Handan Iron and Steel freqüentemente os obriga a recolhê-las para lavar.

A meio mundo de distância, os vizinhos da antiga siderúrgica da ThyssenKrupp, no Vale do Ruhr, Alemanha, costumavam ter um problema semelhante. As camisas brancas que os homens vestiam para a igreja aos domingos costumavam estar cinzentas quando chegavam em casa.

Estas duas cidades siderúrgicas têm uma ligação incomum, que se estende por 8 mil quilômetros e uma década de crescimento econômico. Elas compartilham o mesmo alto forno, desmontado e enviado peça por peça do antigo coração industrial da Alemanha para a província de Hebei, o novo Vale do Ruhr da China.

Chang W. Lee/The New York Times
Hangang recebeu permissão para lançar suas ações no mercado e expandir a produção

A transferência, uma entre dezenas desde o final dos anos 90, contribuiu para uma ampliação da produção de aço pela China, que agora ultrapassa a da Alemanha, Japão e Estados Unidos somadas. Isto deixou a Alemanha com empregos perdidos e um caso ruim de angústia pós-industrial.

Mas as siderúrgicas que expelem partículas no ar e consomem eletricidade das usinas a carvão da China são responsáveis por grande parte das crescentes emissões do país de dióxido de enxofre e dióxido de carbono. A Alemanha, por outro lado, limpou seus céus e agora está liderando a luta contra o aquecimento global.

Em sua pressa de recriar a revolução industrial que enriqueceu o Ocidente, a China absorveu grande parte das grandes indústrias que sujavam o Ocidente. Estimuladas pelo forte apoio do Estado, as empresas chinesas se tornaram as principais produtoras de aço, coque, alumínio, cimento, produtos químicos, couro, papel e outros bens que enfrentavam altos custos, incluindo leis ambientais mais severas, em outras partes do mundo. A China se tornou a fábrica do mundo, mas também sua chaminé.

Esta transferência em massa de indústrias poluidoras manchou a ascensão econômica da China. Taxas de crescimento de dois dígitos fizeram menos para melhorar as vidas das pessoas quando os danos ao ar, terra, água e saúde humana são considerados, dizem alguns economistas. Equipamento ultrapassado de produção terá que ser substituído ou adaptado a um alto custo caso o país pretenda reduzir a poluição.

A piora do meio ambiente na China também afetou a geopolítica do aquecimento global. O país produz e exporta tantos bens antes produzidos no Ocidente que muitos países ricos podem se gabar da redução das emissões de carbono, apesar das emissões em geral do mundo estarem crescendo rapidamente.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 2
PARTE 3
A China também carece de recursos naturais, incluindo minério de ferro, petróleo e madeira, para a indústria pesada e para sua própria classe consumidora em crescimento. Logo, seu crescimento pressiona o meio ambiente em lugares distantes como Canadá, Brasil, Austrália e Indonésia, onde compra matéria-prima em grande quantidade.

Dortmund, a cidade no Vale do Ruhr onde a ThyssenKrupp antes produzia aço, ainda sofre com um desemprego elevado devido aos empregos perdidos para países com custos mais baixos como a China. Mas os alemães podem comprar iPods, máquinas de lavar e navios de carga feitos pelos chineses a preços que, devido aos controles de poluição mais brandos, não refletem o custo ao meio ambiente. E a terceirização de indústrias poluentes lhes propiciam um ar e água mais limpos.

"Me parece que a China está cometendo todos os erros que cometemos no século 19", disse Wilhelm Grote, um regulador ambiental em Dortmund, que lembra de quando lavava o carro de seu pai na juventude, apenas para vê-lo imediatamente coberto de fuligem. "Eles descobrirão que é muito mais caro consertar depois do que fazer direito desde o início."

Ao ignorar as conseqüências ambientais de sua farra industrial por anos, a liderança do Partido Comunista agora diz que está determinada a desenvolver um modelo econômico mais limpo. Pequim tanta fazer valer metas ambiciosas -até o momento não cumpridas- para melhorar a eficiência em energia e reduzir as emissões.

As autoridades se dizem particularmente preocupadas com o custo ao meio ambiente de produzir mais de US$ 1 trilhão por ano em bens para venda no exterior. Do total de emissões de carbono da China, que segundo algumas estimativas agora ultrapassam as dos Estados Unidos, apenas pouco mais de um terço resultam da produção de produtos para consumidores estrangeiros, segundo a Agência Internacional de Energia, um grupo de pesquisa e política de energia em Paris.

A agência central de planejamento do país barrou recentemente a compra de alguns equipamentos industriais usados do exterior, exigindo que as empresas instalem sistemas mais novos e eficientes no consumo de energia. Ela cancelou muitos incentivos concebidos para promover as exportações, especialmente para empresas que consomem energia em excesso e poluem demais. As autoridades alertaram as empresas que violar as leis ambientais lhes custarão suas licenças para exportação.

"Algumas empresas estão abusando do meio ambiente para reduzir os preços para exportação", disse Chen Guanglong, um alto funcionário do Ministério do Comércio, ao anunciar uma repressão aos poluidores neste ano.

"Elas vendem seus produtos no exterior, mas a poluição fica em casa."

Mas há poucos sinais de que as autoridades chinesas realmente lamentam o fato do país ter se tornado um centro mundial de indústria pesada. O investimento em novas usinas e equipamentos para aço, alumínio e cimento aumentaram acentuadamente apesar dos planejadores centrais alertarem que o setor receberá menos apoio do Estado. As exportações de aço da China para a União Européia deverão dobrar neste ano em comparação ao recorde estabelecido em 2006.

A 480 quilômetros ao sul de Pequim, a cidade de Handan é tanto uma beneficiária quanto uma vítima.

Hangang, como a siderúrgica local costuma ser chamada, é uma das favoritas do governo, tendo recebido permissão para lançar suas ações no mercado e expandir a produção. Isto apesar dela, como muitas das maiores empresas de aço da China, estar situada dentro de uma cidade populosa.

Os moradores do lado oeste de Handan vivem em meio ao miasma de pó e fumaça que as autoridades ambientais reconhecem conter numerosos carcinógenos. Após protestos públicos, a empresa concordou em pagar uma "taxa de poluição" anual para compensar alguns vizinhos.

O Ruhr recebe um tipo diferente de subsídio. A Alemanha e a União Européia se comprometeram a destinar quase US$ 22 bilhões para transformar a região em um centro de educação, tecnologia e turismo. Tratores estão transformando o terreno da antiga usina da ThyssenKrupp em uma comunidade com terraço na encosta, com lojas, restaurantes e casas em volta de um lago artificial.

Tradução: George El Khouri Andolfato

China se transforma na chaminé do mundo - parte 2

01/01/2008
China se transforma na chaminé do mundo - parte 2
Joseph Kahn e Mark Landler*
Em Handan, China


Mudança radical
Hangang foi criada por uma lei de Mao. Em 1958, o líder chinês incitou seu povo a sacrificar tudo, incluindo seus potes e panelas, na primeira tentativa da China de se tornar uma superpotência do aço. Ele chamou a campanha de Grande Salto à Frente.

Handan, uma cidade antiga mas negligenciada nas planícies áridas da província de Hebei, no sul, apresentava duas vantagens: veios ricos de carvão e minério de ferro e um fácil acesso à principal linha ferroviária norte-sul.

"A antiga cidade de Handan deve ser rejuvenescida como capital do aço", proclamou Mao. Em termos econômicos, Hangang não foi mais bem sucedida do que o restante do Grande Salto à Frente, que provocou fome em massa. Ela sobreviveu por décadas devido aos subsídios do Estado, fornecendo benefícios aos seus 30 mil funcionários mas produzindo metais ferrosos de baixa qualidade que proporcionavam um retorno ruim.

Chang W. Lee/The New York Times
Operário trabalha em Hangang, siderúrgica localizada em Handan, na China

Nos anos 90, Hangang passou a ser pressionada para dar lucro. Apoiada por empréstimos de bancos do Estado e pelo lançamento de ações na Bolsa de Xangai, ela deu início a uma reforma visando modernizar sua linha de produção. Mas suas ambições ultrapassavam em muito seu orçamento. A empresa precisava de uma solução radical e barata para transformar a siderúrgica.

A resposta veio da Europa, particularmente do Vale do Ruhr.

O Ruhr foi a sala das máquinas da indústria alemã desde meados do século 9. Ela era rica em carvão e zelo prussiano. Mas nos anos 60, a idade de ouro industrial da Alemanha começou a perder intensidade. Os mineiros precisavam cavar mais fundo para extrair carvão, o que se tornou economicamente desvantajoso. Os impostos e os custos trabalhistas aumentaram, enquanto a reunificação sujeitou as empresas da Alemanha Ocidental à concorrência subsidiada da Oriental. As siderúrgicas também enfrentaram forte pressão do governo para instalar os mais recentes controles de eficiência e ambientais.

"Nos anos 80 nós ainda sonhávamos que se tratava apenas de uma desaceleração temporária e que voltaríamos a crescer fortemente", disse Michael Schwarze-Rodrian, diretor da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. "Mas as pressões foram demais. Nosso tempo passou."

A Thyssen e Krupp fundiram suas operações de aço em 1997 e consolidaram sua produção em Duisburg, no Reno. A siderúrgica de Dortmund, chamada Phoenix e que era uma das maiores da Alemanha desde antes da Segunda Guerra Mundial, foi condenada ao fechamento e provavelmente se transformaria em sucata.

Isto é, até que a Hangang soube que poderia comprar um alto forno alemão relativamente sofisticada por uma fração do que custaria um novo.

"A mudança da indústria mundial do aço deu a Hangang esta oportunidade", disse Liu Hanzhang, presidente da Hangang, para a imprensa local após comprar o alto forno da Phoenix em 1998. "Algumas pessoas acham que somos uma siderúrgica de baixa tecnologia. Mas nós nos tornaremos de primeira classe."

A Hangang enviou funcionários para Dortmund. Eles rotularam cada parte do alto forno de sete andares, então o desmontaram e o embalaram em milhares de engradados de madeira para a longa viagem ao porto de Tianjin.

"Eles trabalharam dia e noite", disse Erwin Schneider, um porta-voz da ThyssenKrupp. "Eles nunca teriam feito o trabalho tão rapidamente se fossem regidos pelas leis trabalhistas alemãs."

Não foi o único caso. A Hangang gastou sozinha US$ 800 milhões na importação de equipamento novo e usado, segundo dados da empresa. Ela comprou um forno panela e equipamento de lingotamento usados da Société Métallurgique de Normandie da França. Ela comprou outro alto forno e uma máquina de sínter da Arbed, em Luxemburgo.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 1
PARTE 3
Outras empresas chinesas correram para a liquidação européia, destituindo Dortmund de seus ativos. A ThyssenKrupp vendeu as partes restantes da usina Phoenix para o Shagang Group, uma siderúrgica privada no Rio Yangtze, em 2000. E em 2003, 400 operários chineses desmontaram a usina de coque Kaiserstuhl em Dortmund, que tinha sido construída apenas poucos anos antes para atender aos padrões ambientais europeus.

Negócio sujo
Expelindo e martelando 24 horas por dia, a usina de coque, ferro e aço de Hangang ocupa uma área de 10 quilômetros quadrados e lembra um museu vivo da era industrial. Seu forno a carvão mais antigo, corroído, poderia ter pertencido a Andrew Carnegie. O mais novo, parte de uma grande expansão, usa o calor emitido para gerar força, uma tecnologia que economiza energia.

O equipamento usado europeu se enquadra em um ponto intermediário. Foram necessários vários anos para a Hangang integrar este equipamento na colcha de retalhos de suas linhas de produção. O equipamento da Phoenix foi batizado de alto forno Nº 7. O equipamento da Normandia e de Luxemburgo se tornaram parte da oficina de aço Nº 3.

Enfrentando uma forte concorrência do saturado setor siderúrgico da China, a Hangang ainda não gera lucro de forma consistente. Mas a farra de compras aumentou sua produção. Na década após 1996, sua produção cresceu 350%.

Com brilho amarelo e vermelho, as chaminés chamejantes da Hangang emitem gases e inflamam o céu noturno. Uma frota de locomotivas a diesel para transporte de carvão sacode as casas rurais e prédios de apartamento que cercam os muros externos da usina. Para os 8,5 milhões de moradores de Handan, e especialmente para os dezenas de milhares que vivem à sombra da siderúrgica, o complexo é um leviatã barulhento, nocivo, gerador de dinheiro e empregos.

Tian Lanxiu subiu no telhado da casa de um vizinho na aldeia de Mengwu para ver a extensão de Hangang e além. No horizonte cinzento ela apontou para o alto forno Nº 7 -"aquele que os alemães ocidentais vieram consertar". Perto dali fica uma unidade de resfriamento que emite vapor branco, e uma usina de coque que emite uma descarga amarela.

Tian disse que ela e outros aldeões aprenderam a conviver com as emissões de Hangang. As pessoas não comem ao ar livre, ela disse, para evitar a fuligem preta no seu arroz. E quando as crianças não conseguem dormir à noite, ela tampa os ouvidos delas com algodão.

Algumas pessoas em Mengwu morreram jovens, ela disse, freqüentemente por problemas cardíacos ou câncer. Ela não tem evidência que ligue suas mortes à siderúrgica, mas diz ter pouca dúvida. "Hangang tira 10 anos da vida das pessoas", ela disse. "Todos nós queremos viver mais. Nós estamos nos tornando mais conscientes."

Representantes de Hangang recusaram os vários pedidos para discussão dos controles ambientais e de produção. Mas a empresa disse em entrevistas para a imprensa doméstica que, juntamente com a modernização de suas instalações de produção, ela instalou equipamento de controle de poluição e melhorou o ambiente na região.

Autoridades do governo em Handan também se recusaram a discutir a siderúrgica. Mas um estudo de 2006 de autoridade da cidade e da Universidade de Tianjin apontou níveis anormalmente altos de substâncias químicas da família do benzeno ligadas às partículas de pó de carvão ao redor de Handan.

As concentrações no ar de benzopireno, um subproduto do coque que alguns estudos associaram ao câncer de pulmão, estavam bem acima da média chinesa e pouco abaixo do nível medido em duas das áreas industriais mais poluídas do país, Lanzhou e Taiyuan, disse o estudo. Lanzhou, ele disse, apresenta concentrações de benzopireno mais de 100 vezes acima dos níveis registrados em Londres.

As autoridades de Hangang já consideraram afastar suas linhas de produção mais antigas, mais poluentes, para mais longe da cidade. Autoridades ambientais locais disseram para a imprensa estatal em 2005 que se a siderúrgica deslocasse uma parte de suas operações, os níveis de dióxido de enxofre em Handan cairiam 65%. Hangang no final decidiu não mexer em suas instalações mais antigas, disseram várias pessoas que trabalham na empresa, porque o custo era proibitivo. Em vez disso, Hangang e a Baoshan Iron and Steel de Xangai se uniram para construir outra usina em novo local. A antiga usina da Hangang continua em operação.

As pessoas que moram perto da siderúrgica realizaram alguns protestos contra a poluição ao longo dos anos. A polícia interveio e prendeu alguns manifestantes. Mas a empresa também buscou reduzir a inquietação dando empregos e outros benefícios aos moradores da área.

Há dois anos, Tian e um grupo das mulheres mais idosas realizaram um protesto sentado em alguns trilhos ferroviários, exigindo que a Hangang pagasse pela mudança delas para apartamentos distantes da siderúrgica, disse Tian.

A Hangang se recusou. Mas posteriormente concordou em pagar a elas um subsídio em vez da mudança, o que os moradores chamam de "taxa de poluição".

Em um muro ao longo da rua da aldeia, as autoridades colaram tiras de papel de arroz azul listando os nomes de cada um dos chefes da cada lar e seu pagamento pela poluição. Tian disse que recentemente recebeu seu terceiro pagamento anual, totalizando US$ 140.

Tradução: George El Khouri Andolfato

China se transforma na chaminé do mundo - parte 3


01/01/2008
China se transforma na chaminé do mundo - parte 3

Joseph Kahn e Mark Landler*
Em Handan, China


A vantagem da China
A China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou a maior produtora de aço do mundo há 10 anos. De lá para cá, a produção de aço tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha permaneceu praticamente inalterada, enquanto a China os deixou comendo poeira. Suas usinas quintuplicaram sua produção ao longo da década, para cerca de 38% do total mundial.

Esta é uma realização do sonho de Mao. Mas o aço também provou ser uma maldição. A China conta com 77 siderúrgicas grandes como a Hangang, e centenas de concorrentes menores. Elas possuem tamanho excesso de capacidade que a produção de alguns produtos básicos de aço se tornaram deficitários domesticamente e no exterior. Pior, o aço polui mais do que qualquer outra indústria na China, talvez no mundo.

Apesar do esforço do governo para promover a eficiência, o aço usará 11% a mais de energia neste ano do que no anterior, um décimo da oferta total de energia do país, segundo a Associação de Ferro e Aço da China.

Chang W. Lee/The New York Times
Siderúrgica Hangang, segundo estudos, reduz em 10 anos a expectativa de vida das pessoas

Juntamente com o alumínio e o cimento, o aço é o maior motivo para a China ter adicionado 90 gigawatts de capacidade de geração neste ano, o terceiro ano consecutivo em que aumenta sua produção de energia em mais do que a capacidade total do Reino Unido. Cerca de 85% destas novas usinas de força queimam carvão.

A Agência Internacional de Energia, que previu há poucos anos que as emissões de carbono da China não se igualariam às dos Estados Unidos antes de 2020, agora acredita que a China já assumiu a dianteira neste ano.

Chen Kexin, um economista do Ministério do Comércio da China, disse que as fracas leis ambientais e a energia ainda barata, mais do que os baixos custos do trabalho, permitiram aos produtores de aço chineses a redução de seus preços. "A ausência de proteção ambiental é um dos principais motivos para nossas exportações serem mais baratas", disse Chen. "Isto dificilmente é uma 'vantagem' da qual devemos nos orgulhar."

De fato, Pequim começou a desencorajar a exportação de aço. Ele não apenas eliminou as restituições do imposto de exportação para muitos produtos de aço em abril, mas também adicionou uma sobretaxa a alguns. As autoridades esperam uma desaceleração do crescimento das exportações.

Mas Chen disse que a China atualmente domina tanto o comércio internacional de aço que qualquer redução de suas exportações provocaria um aumento de preços no exterior, mantendo o aço local competitivo. "Poderá levar anos para restaurar uma balança comercial mais normal", ele disse.

A transferência da poluição para a China também complica os esforços internacionais para reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa e para o acerto de um plano para suceder o Protocolo de Kyoto, uma questão que será discutida ao longo dos próximos dois anos.

Um benefício aparente da ascensão industrial da China é que os países desenvolvidos desaceleraram ou reduziram suas emissões de carbono, um benefício político e ambiental à medida que cresce a pressão para combater a mudança climática. Mesmo os Estados Unidos, que se recusaram a estabelecer limites às emissões de carbono, recentemente apresentaram pequenos declínios. Mas os ganhos são ilusórios.

Um estudo de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon apontou que se todos os bens que os Estados Unidos importaram entre 1997 e 2004 tivessem sido produzidos domesticamente, as emissões de carbono americanas teriam sido 30% maiores.

Outro estudo do Parlamento Europeu examinou a transferência da produção de aço da Alemanha para a China. Ele apontou que as siderúrgicas menos eficientes da China, assim com sua maior dependência do carvão, fazem com que o país emita três vezes mais dióxido de carbono por tonelada de aço do que os produtores de aço alemães emitiriam.

Do ponto de vista de Pequim, suas exportações de aço e outros produtos "carbono intensivos" fornecem mais um motivo -juntamente com suas emissões per capita ainda moderadas e seu baixo padrão de vida- para rejeitar a criação de limites obrigatórios de emissão de carbono. Os países ricos, ele diz, devem reduzir suas próprias emissões acentuadamente e transferir tecnologia para que a China não polua tanto quanto esses países durante seus booms industriais.

Alguns importantes economistas ambientais concordam. "A pegada dos países ricos é muito grande, porque empregam recursos de outros países", disse R. Andreas Kraemer, diretor do Instituto Ecológico para a Política Ambiental Européia e Internacional, em Berlim. "A China diz: 'Sim, nossas emissões vão aumentar, mas isto porque estamos produzindo os bens que antes eram produzidos na Europa e nos Estados Unidos'."

Alguns ambientalistas dizem que os países ricos devem se concentrar em reduzir seu consumo em vez de sua produção de carbono. Isto os obrigaria a conter o que importam da China e outros lugares.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 1
PARTE 2
Tanto o Parlamento Europeu quanto o Congresso americano discutiram uma taxação de bens carbono-intensivos importados, como aço e outros produtos de indústria pesada. Em teoria, isto desencorajaria a transferência da produção para o exterior para driblar as limitações de emissão de carbono ou das taxas domésticas. Mas tais propostas continuam teóricas, enquanto a transferência da indústria pesada para a China é inexorável.

Segunda chance
A Alemanha é o espelho da China. Fábricas poluentes emigraram para o exterior. A mineração de carvão encolheu. Desde 1990, a Alemanha reduziu suas emissões anuais de carbono em 19%. A transformação da Alemanha data dos anos 70, com as primeiras tentativas para limitar o chumbo na gasolina, mas ganhou força nos anos 80, com a fundação do Partido Verde, o primeiro partido ambientalista a ganhar proeminência nacional na Europa. Em 1986, estimulada em parte pelo desastre nuclear de Chernobyl, a Alemanha Ocidental criou um ministério dedicado a proteger o meio ambiente.

Ele tinha muito o que fazer. As florestas da Alemanha foram seriamente prejudicadas pela chuva ácida, fuligem e poluentes químicos das fábricas no Ruhr. O Rio Reno, que flui para além da divisa oeste do Vale do Ruhr, estava desprovido de vida aquática.

A reunificação alemã em 1990 impôs ao país as usinas a carvão marrom de baixa qualidade da Alemanha Oriental, as mais sujas da Europa. A Alemanha limpou o Oriente, fechando muitas fábricas de baixa eficiência e conseguindo reduções acentuadas nas emissões de carbono.

A reunificação também produziu uma nova geração de líderes políticos verdes. A chanceler Angela Merkel, uma física da Alemanha Oriental, entrou na política em 1994, quando o chanceler Helmut Kohl a nomeou ministra do Meio Ambiente.

Merkel, que recebeu o apelido de "chanceler do clima", tem defendido acordos multilaterais para reduzir as emissões de carbono, apesar da forte resistência dos Estados Unidos às reduções obrigatórias.

Em 5 de dezembro, o governo dela aprovou uma legislação para reduzir as emissões da Alemanha em 40% adicionais até 2020. "A Alemanha quer dar o exemplo", ela disse.

Dortmund e outras cidades do Ruhr nunca se recuperaram plenamente dos empregos perdidos para os novos titãs do aço da China. O índice de desemprego na cidade ainda paira em torno de 15%, 50% mais alto do que a média nacional.

Walter Schwalen, um ex-trabalhador siderúrgico de 68 anos, apontou pela janela do segundo andar de seu prédio para o buraco preto onde os altos fornos da Phoenix funcionavam.

Ele disse que assistiu de sua janela a equipe de operários chineses desmontar e embalar seu antigo local de trabalho em 1998. "Eu pensei: 'Nossa pobre Alemanha'", ele disse. "Uma empresa atrás da outra está fechando. A Alemanha está arruinada."

Mas a região do Ruhr também é um laboratório para a transição para uma era pós-industrial. Antes sinônimo de sujeira, onde os motoristas acendiam os faróis de seus carros na metade da manhã para ver em meio à névoa de fumaça de carvão, ela foi nomeada uma capital européia da cultura para 2010, com suas minas e usinas transformadas em museus ou centros de arte.

Em Essen, uma mina de carvão esgotada foi convertida em museu e centro de artes, assim como foi designada um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Em Bochum, uma usina a gás de 105 anos agora se transformou em sala de concerto. A Alemanha também planeja gastar US$ 7 bilhões para resgatar outro legado de seu passado poluído: o Emscher, um rio de 84 quilômetros de extensão que sofreu a indignidade de ser transformado em canal de esgoto industrial no final do século 19. O Emscher recuperado será margeado por uma área de parque, a espinha dorsal de uma Trilha da Herança Industrial de 399 quilômetros para turistas.

Dortmund, que em 1960 tinha 40 mil pessoas trabalhando em siderúrgicas, agora tem menos de 3 mil. Mas há 12 mil novos empregos em tecnologia da informação e 2.300 em nanotecnologia, que se enraizou aqui nos últimos cinco anos. A região, que antes não tinha universidades, agora tem seis, assim como oito faculdades, com um total de 160 mil estudantes matriculados.

Mesmo o terreno da Phoenix está ressurgindo. A cidade deixou dois velhos altos fornos ali como um centro corroído do que esperam que se transformará em um complexo de artes ao ar livre. Além de um lago e um complexo residencial, o governo está construindo um escritório para novas empresas.

"Foram necessárias três gerações para fazer isto ao meio ambiente", disse Schwarze-Rodrian, da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. "Eu acho que é razoável que leve uma geração para consertar."

* Reportagem de Joseph Kahn, em Handan, China, e Dortmund, Alemanha; e de Mark Landler, em Dortmund. Jake Hooker e Ma Yi, em Pequim e Handan, e de Sarah Plass, em Dortmund e Frankfurt, Alemanha, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato