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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Regressando a "Tropa de Elite"

Regressando a "Tropa de Elite"


Duas semanas atrás, escrevi na Folha um pequeno comentário sobre "Tropa de Elite", o filme de José Padilha que conquistou Berlim e deixou o Brasil em estado de choque. Dizia então que "Tropa de Elite", pela forma séria como apresentava a criminalidade urbana no Rio, era o filme mais adulto do moderno cinema brasileiro.

Foi o que bastou para que o meu email explodisse com a fúria dos leitores. "Racista", "fascista", "nazista", "ditador", "criminoso", "sanguinário". Esses foram os elogios. Os insultos são irreproduzíveis porque a Folha é um jornal de família. A pergunta é óbvia: por que essa hostilidade, Deus meu?

A hostilidade, creio, nasce pela forma caricatural como o crime é apresentado e analisado no Brasil. Quando o assunto é "droga" ou "favelas", existem de imediato dois campos que, no seu simplismo primário, se enfrentam com irracionalidade clássica.

Existe o campo dos criminosos, ou seja, daqueles que acreditam que o tráfico é produto exclusivo da pobreza. Os criminosos são bons, naturalmente bons, mas a sociedade em volta obriga essa gente pobre a optar por uma vida de risco e transgressão. Se a riqueza fosse justamente distribuida no Brasil, não haveria droga, não haveria assaltos, não haveria crime. É a sociedade, e não a escolha individual, que transforma o criminoso em criminoso.

No extremo oposto a essa tese, existe outra. A que defende a polícia sem nenhum tipo de reserva. O crime combate-se com mais polícia; e a polícia tem de usar todos os meios disponíveis para esmagar o tráfico e a bandidagem. Os meios podem implicar a tortura ou a matança indiscriminada dos favelados.

Quando o criminalidade brasileira é dividida dessa forma, é normal que o filme "Tropa de Elite" seja repartido entre duas escolas. A primeira, que desculpa e defende os criminosos, critica o filme de Padilha e insulta de imediato colunistas de jornal. A segunda, que desculpa e defende a polícia, aplaude o filme de Padilha. Mas, estranhamente, não escreve aos colunistas de jornal.

E não escreve porque existem colunistas de jornal que não estão dispostos a embarcar em nenhuma dessas correntes. Desde logo porque o filme de Padilha, na sua complexidade, também não legitima nenhuma delas.

Os criminosos são vítimas da pobreza e da exclusão? Padilha desmente essa tese, que aliás sempre me pareceu um insulto para gente pobre e honesta. Mas Padilha desmente a tese oposta, ao mostrar a corrupção da polícia e, quando o BOPE entra em cena, ao filmar a desumana brutalidade dessa tropa de elite. Não é por acaso que o último plano do filme apresenta Matias pronto para executar um criminoso. A arma está apontada para o traficante; mas também está apontada para nós, espectadores.

E é bom que esteja. Porque os espectadores não são parte alheia ao problema, sobretudo se estivermos a falar da classe média ou alta que alimenta o tráfico ao mesmo tempo que abomina a polícia e romantiza os criminosos. A maturidade de Padilha reside na capacidade para trazer esse terceiro elemento para a discussão. E uma sequência do filme, amplamente citada, ilustra o ponto de forma crucial: acontece quando os estudantes universitários discutem "Vigiar e Punir", a obra de Foucault sobre a história do sistema prisional como mecanismo de repressão e poder. Os meninos na sala de aula, com o beneplácito de um professor tão infantil quanto eles, usam a teses de Foucault para denunciar a brutalidade da polícia como origem de todos os males, inclusive dos males da criminalidade.

Mas é novamente Matias, que curiosamente me parece o personagem central de "Tropa de Elite", quem fala com o único conhecimento que interessa: o conhecimento da experiência. E que lhe diz essa experiência? Sim, a polícia é brutal e até corrupta; sim, os bandidos devem ser punidos; mas a origem de todos os males está precisamente na atitude de meninos de classe média ou alta que, ao mesmo tempo que demonizam a polícia, alimentam o tráfico nas favelas. Quando a polícia entra para prender ou matar, e quando balas perdidas atingem crianças ou inocentes, os consumidores do tráfico já estão longe. Estão nas suas festas privadas, nas varandas de Ipanema ou Copacabana.

A culpa é da polícia? A culpa é dos criminosos? Ou a culpa é vossa, leitores? A mestria de Padilha reside aqui: na guerra civil das cidades brasileiras, há poucos inocentes e muitos culpados. Os leitores que gostam de insultar os colunistas deveriam olhar para o espelho e perguntar se o verdadeiro destinatário do insulto não é o próprio reflexo.

João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com

terça-feira, 29 de abril de 2008

Exportação de gado vivo aumenta no 1º trimestre

AgroFolha

Exportação de gado vivo aumenta no 1º trimestre Em relação a igual período do ano passado, receita com embarque sobe 203%

Em volume, crescimento é de 31%; para indústrias, há retrocesso em ampliar a venda externa de boi em pé em vez de carne processada


GITÂNIO FORTES
DA REDAÇÃO

Os embarques de gado em pé seguem de vento em popa. No primeiro trimestre, o volume de bovinos vivos exportados a outros países -com destaque para Venezuela e Líbano- chegou a 86,6 mil animais, crescimento de 31% na comparação com os negócios de igual período do ano passado.
A receita em relação a igual período de 2007 "explodiu" 203%, aumentando para US$ 68,2 milhões, 26% do valor obtido ao longo de todo o ano passado com as vendas de gado do país para abate no exterior. Em 2007, houve mais embarques no segundo semestre.
O grupo Minerva, um dos líderes no embarque de boi em pé, prevê que, em 2008, esses negócios representem 15% da receita da companhia, diz o superintendente de Relações com Investidores, Ronald Aitken. Em 2007, foram 13%. Em 2006, 4%. O Minerva está entre os cinco principais exportadores de carne bovina do país.
Os números das vendas externas de gado em pé contrastam com o desempenho dos cortes "in natura" nos três primeiros meses do ano. Segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), foram embarcadas 252 mil toneladas, recuo de 10,3% ante igual período de 2007. A receita bateu em US$ 892 milhões, crescimento de 5,3%.
Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira da Indústria Frigorífica), considera um retrocesso o país crescer na exportação de matérias-primas, "não apenas de bois", em vez de produtos com valor agregado.
Segundo ele, não existe a intenção de proibir os embarques, mas, sim, a de taxar essas vendas para dar à indústria do país "poder de competição igual" aos importadores venezuelanos e libaneses. A Abrafrigo apresentou o assunto à Receita Federal.

Dois lados
Para Ronald Aitken, do Minerva, que atua dos dois lados do balcão, a exportação de gado em pé não pressiona o preço do gado no Brasil. Estimativa da Scot Consultoria mostra que, no ano passado, os embarques de bovinos equivaleram a apenas 1,4% do abate formal. "A pecuária está atualmente num ciclo de alta", afirma.
Para José Vicente Ferraz, diretor da consultoria AgraFNP, "do ponto de vista econômico, não há sentido" em exportar animais vivos em vez de produtos processados. Mesmo assim, considera "lamentáveis" ações que visem obstruir um canal de venda para os pecuaristas.
"Quanto mais opções de negócios, melhor para a pecuária como um todo", afirma Fabiano Tito Rosa, analista da Scot Consultoria. Para ele, as exportações de gado em pé representam desafios para a cadeia produtiva de determinados Estados, em que a demanda para os embarques é mais intensa. O Pará tem liderado essas vendas.
Responsável pelas pesquisas do mercado pecuário do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP), Sergio de Zen diz ser "compreensível, mas não defensável" os frigoríficos buscarem resguardar espaço na cadeia produtiva paraense via sobretaxas. Até porque, avalia, a exportação de gado em pé não deve crescer indefinidamente.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ultra negocia compra da Texaco por US$ 1,6 bilhão

Ultra negocia compra da Texaco por US$ 1,6 bilhão

Transação coloca "nova" Ipiranga em 2º na distribuição de combustíveis do país

Norte-americana Chevron vai manter suas fábricas de lubrificantes no país; no segmento, é superada apenas pela Petrobras

PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO

Enquanto Petrobras e Esso não se acertam, um negócio ainda maior no setor de distribuição de combustíveis está próximo a ser concluído: a compra da Texaco pelo grupo Ultra, que já controla a rede da Ipiranga no Sul e no Sudeste do país. Se não houver um retrocesso nas negociações, o valor deve chegar a US$ 1,6 bilhão, apurou a Folha.
A norte-americana Chevron (que se fundiu com a Texaco nos EUA e controla a marca) manterá suas fábricas de lubrificantes no país.
A empresa é vice-líder nesse segmento, disputando a dianteira com a Petrobras.
Se a transação se concretizar, superará a da Petrobras, que negocia a compra dos postos da Esso por US$ 1 bilhão.
Segundo dados do setor, a Texaco detinha cerca de 9% do mercado de distribuição de combustíveis -que movimentou, ao todo, R$ 135 bilhões no ano passado. A participação da Esso era menor: 7%.
A possível transação colocará a "nova" Ipiranga, controlada pelo Ultra, na vice-liderança folgada do setor, com participação em torno de 22%, bem à frente de Shell (cerca de 15%), terceira colocada. Atualmente, a Ipiranga (Ultra) controla 12,9% do mercado.
Procurado, o grupo Ultra disse estar sempre atento a oportunidades -sem, porém, confirmar ou negar entendimentos com a Chevron/Texaco.
A Petrobras, por meio da BR Distribuidora, tinha 34,7% do mercado antes de ficar com parte da rede da Ipiranga. Com a aquisição, passou a 39%. Se comprar a Esso, vai a 46%.
Tal nível de concentração é preocupante, segundo executivos do setor que preferem não se identificar. Em alguns mercados importantes do Norte e do Nordeste, a estatal terá mais de 50% de participação.
O presidente da BR Distribuidora, José Eduardo Dutra, ressaltou ontem, porém, que a companhia terá menos de 50% do mercado, mesmo após uma eventual aquisição da Esso. Indagado sobre a concentração de mercado, afirmou: "Isso é o Cade que tem de julgar" (leia texto ao lado).
O executivo disse acreditar que o órgão de defesa da concorrência analisará cada município e determinará a venda de postos nos quais a participação de mercado supere os 50%. Foi assim que agiu no caso da aquisição da Liquigás, comprada da italiana ENI em 2004.
Dutra não falou, porém, sobre a evolução das negociações com norte-americana Exxon Mobil, controladora da Esso Brasileira de Petróleo.
Atualmente, o mercado de distribuição já é bastante concentrado: as 10 empresas associadas ao Sindicom, as maiores do setor, controlam 81% do volume total de vendas de combustíveis no país. O peso dos postos sem bandeira tem caído nos últimos anos.

Casamento perfeito
Alguns detalhes importantes do negócio ainda estão em discussão entre Ultra e Chevron/ Texaco. Mas executivos do setor dizem que a rede da Texaco era tudo o que o Ultra precisava: tem base de distribuição e postos no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste e um ótimo relacionamento com os revendedores -o que seria um ponto fraco da Esso. Na partilha da Ipiranga com a Petrobras, os ativos nessas regiões ficaram com a Petrobras.
Trata-se de um casamento perfeito, avaliam. Metade das vendas da Ipiranga no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste são sem contrato.
O grupo Ultra poderá correr atrás desses clientes, pois passará a ter bases de distribuição nesses locais após a nova aquisição e manteve todo o corpo gerencial da antiga Ipiranga e contará ainda com o da Texaco.

domingo, 6 de abril de 2008

O horror da morte do filho

O horror da morte do filho

FRANCISCO DAUDT
COLUNISTA DA REVISTA DA FOLHA

QUANDO meus filhos nasceram, um terror sem nome se alojou no fundo do meu cérebro: eles podiam morrer. Claro, sem ser o único motivo, eu cuidava o tempo todo para que isso não acontecesse. Sou médico e homem de tomar providências, mas, quando minha filha Patrícia teve seu tendão de Aquiles lesionado por ter caído de uma mesa de vidro, eu sabia que meu desespero estava sendo ocultado pelo fato de eu estar no comando da situação. Ela estava em sofrimento, mas eu podia fazer alguma coisa.
A impotência é outro assunto. Uma cliente, com o filho tomado por uma leucemia devastadora, ao mesmo tempo que rezava, perguntava-se: "Por que Deus está fazendo isto com meu filho?", e o amaldiçoava ao mesmo tempo. Ele era o culpado.
Quem toca em nossos filhos desperta em nós os instintos de ódio mais primitivos, tão ligados àquele terror eles estão. "Mexeu com meu filho." Todos sabemos o que é isto.
Nas situações em que a fatalidade, o acaso, o destino nos rouba os filhos, mesmo nelas, queremos ver um nexo, descobrir uma relação de causa-efeito, buscamos um culpado em quem nos vingar, ainda que pensemos que o culpado somos nós ("e se eu..."), quando a depressão resultante é avassaladora. Assim é a natureza humana, que nos dá a ilusão de que temos controle sobre algo.
O caso Isabella está produzindo uma enorme comoção. Pessoas prejulgando, com desejos de linchar, de matar aqueles que "poderiam ser os culpados", de personalizar a culpa antes mesmo que ela seja estabelecida pela Justiça. Não me surpreende. Vejo algo assim em mim mesmo, a despeito de minha racionalidade.
Quanto mais as pessoas acreditam na Justiça, tanto menos elas querem tomá-la em suas mãos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

As contas do presidente da República por Lúcia Hipólito

As contas do presidente da República

A liminar negada pelo ministro Lewandowski, ao STF, ao pedido do PPS para acabar com o sigilo dos gastos da Presidência da república com cartões corporativos aumenta o debate sobre o que pode e o que não pode ser considerado sigiloso nas contas da Presidência.

Em primeiro lugar, a Presidência não é apenas o presidente e sua família. A Presidência é uma estrutura complexa, uma espécie de guarda-chuva que abriga vários órgãos.

Antes do Decreto-lei nº 200, de 1967 – última reforma administrativa realmente abrangente realizada no Brasil –, a Presidência da República servia de abrigo para as iniciativas mais exóticas. Quando não se queria resolver um assunto, era criada uma comissão ligada à Presidência da República.

Por exemplo, pertenciam à estrutura da Presidência a Comissão de Criação do Cavalo Nacional (CCCN), a Comissão de Combate à Saúva (CCS), a Comissão Executiva da Mandioca (CEM) – isso mesmo!

Depois do Decreto-lei nº 200, os abusos e as bobagens foram extintos, mas os governos seguintes passaram a agregar ou exterminar órgãos da Presidência a seu bel-prazer.

Atualmente, pertencem à estrutura da Presidência da República os seguintes órgãos: Casa Civil, Secretaria Geral, Secretaria de Relações Institucionais, Gabinete de Segurança Institucional (antiga Casa Militar, que abriga a Abin e seus arapongas), Secretaria de Imprensa e Porta-voz, Advogado-Geral da União, Controladoria Geral da União, Conselhos, Comissão de Ética Pública, Sistema Público de Comunicação (TV pública, Radiobrás etc).

Pertencem ainda à estrutura da Presidência as Secretarias Especiais cujos titulares possuem status de ministro: Secretaria de Comunicação Social, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, Secretaria Especial de Direitos Humanos, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Secretaria Especial de Portos, Núcleo de Assuntos Estratégicos (com o ministro Mangabeira e seus aquedutos amazônicos).

Os gastos com agentes secretos que protegem o presidente, com os deslocamentos do presidente e outros gastos similares podem ser mantidos em sigilo, sob o argumento da segurança nacional.

Mas não há razão alguma para se manter em sigilo, por exemplo, as contas da Casa Civil, da Secretaria de Comunicação Social, do Núcleo de Assuntos Estratégicos e coisas assim.

Também não faz nenhum sentido manter em sigilo as contas do presidente e seus familiares.

Um presidente é um servidor público, que dorme em palácios construídos e mantidos pelo povo, come uma comida paga pelos impostos pagos pelo povo, locomove-se em automóveis pagos pelo povo, com combustível pago pelo povo.

Enfim, não pode deixar de ser presidente. Presidentes não têm expediente nem momentos privados (momentos íntimos são outra coisa). Sua vida está permanentemente sob escrutínio da opinião pública.

Ninguém é obrigado a seguir uma carreira política. Mas quem o faz tem que saber que passará a viver numa vitrine, sob o olhar permanente e investigador da opinião pública.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Intimidação e má-fé

Intimidação e má-fé

BISPOS da Igreja Universal do Reino de Deus desencadeiam, contra os jornais "Extra", "O Globo", "A Tarde" e esta Folha, uma campanha movida pelo sectarismo, pela má-fé e por claro intuito de intimidação.
Em dezembro, a Folha publicou reportagem da jornalista Elvira Lobato descrevendo as milionárias atividades do bispo Edir Macedo. Logo surgiram, nos mais diversos lugares do país, ações judiciais movidas por adeptos da Igreja Universal que se diziam ofendidos pelo teor da reportagem.
Na maioria das petições à Justiça, a mesma terminologia, os mesmos argumentos e situações se repetiam numa ladainha postiça. O movimento tinha tudo de orquestrado a partir da cúpula da igreja, inspirando-se mais nos interesses econômicos do seu líder do que no direito legítimo dos fiéis a serem respeitados em suas crenças.
Magistrados notaram rapidamente o primarismo dessa milagrosa multiplicação das petições, condenando a Igreja Universal por litigância de má-fé. Prosseguem, entretanto, as investidas da organização.
Não contentes em submeter a repórter Elvira Lobato a uma impraticável seqüência de depoimentos nos mais inacessíveis recantos do país, os bispos se valeram da rede de televisão que possuem para expor a pessoa da jornalista, no afã de criar constrangimentos ao exercício de sua atividade profissional.
É ponto de honra desta Folha sempre ter repelido o preconceito religioso. A liberdade para todo tipo de crença é um patrimônio da cultura nacional e um direito consagrado na Constituição. A pretexto de exercê-lo, porém, os tartufos que comandam essa facção religiosa mal disfarçam o fundamentalismo comercial que os move. Trata-se de enriquecimento rápido e suspeito -e de impedir que a opinião pública saiba mais sobre os fatos.
Não é a liberdade para esta ou aquela fé religiosa que está sob ataque, mas a liberdade de expressão e o direito dos cidadãos à verdade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Solução para o país é dar férias coletivas para todo o governo

ENTREVISTA DA 2ª/HENRY MAKSOUD

Solução para o país é dar férias coletivas para todo o governo

Para empresário, erro de Lula foi ter comprado um avião. Deveria ter comprado 15 para o governo viajar o mundo

O ESTILO polêmico, desafiador, anárquico continua o mesmo. Nos anos 70 e 80, em pleno regime autoritário, o nome Henry Maksoud foi sinônimo de crítica e independência. Dono da revista "Visão", um dos principais veículos de informação do país na época, e um programa de TV ao modelo "talk-show", no qual falava mais que os convidados, o empresário marcou época por sua defesa do liberalismo econômico. Admirador do economista e filósofo Friedrich August von Hayek, considerado o pai do neoliberalismo, de quem se tornou amigo, Maksoud ainda prega as mesmas idéias.
Em entrevista concedida no seu escritório do hotel Maksoud Plaza, que durante muito tempo foi ponto de referência de grandes empresários, banqueiros e políticos, Henry Maksoud, 78, continua o mesmo. Sem papa nas línguas.
Ao comparar os governos Lula e FHC, disse: "Se for para considerar o que o mundo pensa do Brasil, o governo do Lula é melhor. E, se for para considerar o que eu penso do Brasil, esse e o outro são umas merdas".

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

FOLHA - O senhor acha que a concepção liberal na economia pode ser considerada, hoje, vitoriosa?
HENRY MAKSOUD -
O conceito liberal que eu defendo não é o que se tem hoje. Essa bobagem chamada neoliberal não existe. Pode escrever. Neoliberal é besteira. Não existe essa asneira. O que aconteceu na Inglaterra e na Escócia é algo que poderia ser chamado de liberalismo clássico, mas aconteceu só lá. Foi apenas uma pequena mancha tão forte que as idéias foram para alguns outros lugares. Mas isso não quer dizer que, depois disso, o liberalismo clássico, a economia de mercado, espalhou-se pelo mundo. Não. Se você procurar onde existe a economia de mercado, vai ver só algumas manchas.

FOLHA - Nos Estados Unidos?
MAKSOUD -
É, mas aqui [no Brasil] nenhuma mancha.

FOLHA - No Brasil?
MAKSOUD -
No Brasil, zero. No Brasil, quase nenhuma mancha. Não, não existe. Aqui tem [no seu escritório], mas às vezes me vejo infectado porque vivo aqui.

FOLHA - Aqui onde?
MAKSOUD -
Aqui neste lugar onde estou [em seu escritório, no hotel]. Mas isso não quer dizer que eu exerço o que deveria se chamar de economia de mercado, até porque não posso exercer. Sou um prisioneiro. Vivo prisioneiro de um Estado, igual a um clube ao qual sou filiado compulsoriamente. Eu me revolto contra o Estado, mas eles me punem.

FOLHA - Como o sr. é punido?
MAKSOUD -
Me punem, eles punem você também. Você é punido quando, no fim do mês, não leva dinheiro para casa, leva dívida. Não trabalho livremente. Há coisas que não deveriam existir neste país.

FOLHA - Por exemplo?
MAKSOUD -
Aquele livro amarelo que está lá [aponta a estante em frente], a Consolidação das Leis Trabalhistas, só aqui existe isso e é um dos troços que vêm mantendo o país subdesenvolvido e, se continuar existindo, vai manter o país assim ao longo da vida. Não tem nada a ver com Justiça. É um troço estapafúrdio, travesseiro dos advogados. Segura o progresso e vai continuar segurando. O Brasil não cresce por causa disso. E também não tem como crescer por causa do sistema tributário.
Não tem como crescer por causa do sistema de formação de capital. Não temos um mercado de capitais no Brasil, banco privado. Todos os bancos são paraestatais. Os bancos existem só para ajudar o governo. Para haver economia de mercado, um dos elementos que o empreendedor precisa ter é capital. Aqui não existe. Aqui existe desestímulo à formação de capital fixo, ou seja, desestímulo à formação de poupança pelos indivíduos e pelas empresas. Tudo o que existe de formação de capital ou de poupança o governo lança mão para queimar, para jogar fora.

FOLHA - O mercado de capitais cresceu nestes últimos dois anos.
MAKSOUD -
Você quer dizer que os bancos têm tido lucros imensos? Isso não quer dizer que o mercado cresceu.

FOLHA - A Bolsa cresceu e mais investidores entraram no mercado.
MAKSOUD -
Por que estão entrando no mercado? Porque os juros nos EUA baixaram e há muita liquidez no mundo. Então, eles vêm para um país onde os juros estão lá na estratosfera, e aqui a regra, a lei brasileira, por um milagre qualquer ou por inteligência, diz que você pode vir com o dinheiro de fora na Bolsa, lucra e leva embora que não vamos impedir. Enquanto mantiverem isso, vai ser esse troço e nós, índios selvagens, eu me coloco junto só para você não se sentir ofendido, julgamos que a Bolsa está crescendo, que a coisa está formidável. É, simplesmente, um jogo de troca de papel. Troca de papel não faz crescer fábrica, emprego, não me faz poder melhorar meus negócios. Estou há 15 anos tentando construir três hotéis formidáveis e não consigo. Só tem gente atrapalhando e eu não consigo fazer. O pior é que são hotéis viáveis.

FOLHA - Onde seriam os hotéis?
MAKSOUD -
Manaus, Angra dos Reis e Bauru.

FOLHA - E por que o sr. não consegue fazer?
MAKSOUD -
Ninguém acredita nas dificuldades que tenho. Agora, sou teimoso, nasci teimoso. Vou brigando, até porque me faz bem para saúde. Se vir que estou errado, desisto, mas, se não estou errado, continuo na briga.

FOLHA - Qual é a sua avaliação do governo Lula?
MAKSOUD -
Quando ele foi eleito com aquela força toda, o mundo ficou apavorado. E muitos brasileiros pensaram que iríamos ter aqui uma nova Cuba ou um troço parecido com o que agora é o Hugo Chávez lá na Venezuela ou esse outro na Bolívia [Evo Morales]. Ficaram todos preocupados com o que ia acontecer. E é surpreendente o que aconteceu de lá para cá, para todo mundo.

FOLHA - Inclusive para o senhor?
MAKSOUD -
Para mim, também. Quando comecei a ouvir o Lula falar de improviso, no começo ele errava muito nas expressões, mas falava, transmitia as idéias de forma simples, de improviso. Não decorava nada e falava o dia inteiro. Cara inteligente. Surpreendeu em vários aspectos. É preciso dar um crédito desgraçado para ele. Ele fez uma jogada, a mais brilhante que já possa ter feito um político. Ele colocou na presidência do Banco Central um homem que tinha recém-saído da presidência de um dos maiores bancos do mundo, que era o BankBoston. Ele falou: "Puxa, esse cara tem ambição política". Ele imaginou o seguinte: "Não podemos colocar um dos nossos, porque há cobras e lagartos dentro do BC, precisa ser alguém que saiba mexer com esse troço de dinheiro". Imagina como aquele troço é supercomplicado. E puseram o sr. Henrique Meirelles. Salvou o Brasil. Você viu que, de uma hora para outra, desanuviou? Você não vê isso como jornalista?
O mundo está desanuviado. Não se desconfia. Ele [Lula] vai lá e está falando com o mundo inteiro. Veste aquela casaca e tal e vai lá com o rei, a rainha. Você pensou uns anos atrás o Lula e a mulher dele andando lá pelos jantares de coisa real, pelo mundo inteiro? Só tem um defeito sério o Lula. Ele só cometeu um grande erro.

FOLHA - Qual foi o erro de Lula?
MAKSOUD -
Comprou só um avião. Ele deveria ter comprado uns 15 aviões e colocado o governo o tempo todo viajando.

FOLHA - Por quê?
MAKSOUD -
Aí não teríamos governo. Você está rindo, eu estou falando sério. Sou anarquista. As pessoas pensam que anarquia é bagunça. Anarquia é um sistema de governo. Quer dizer governo mínimo. Você já imaginou o governo viajando o tempo todo e em aviões bacanas por esses lugares todos? Anos atrás, uns amigos me acusavam de eu ficar criticando, escrevendo, falando e nunca apontar uma solução. E aí dei uma solução: férias coletivas para o governo. Vocês ficam rindo, mas falo sério. O Brasil tem um monte de reservas em dólar, não tem? Bilhões e não tem o que fazer. Olha o mapa do mundo [aponta um mapa-múndi], há umas ilhas ali do lado da Austrália, do lado do Pacífico, compra umas belas ilhas e põe os governos lá em férias.

FOLHA - É mais barato?
MAKSOUD -
Mais barato que uma penada por dia que cada um deles dá. Cada penada custa os olhos da cara para o povo brasileiro. Cada hora que ele assinam um troço daqueles custa um monte de dinheiro. Manda os caras de férias em dez anos renováveis. As pessoas riem e pensam que estou brincando quando falo isso.

FOLHA - Qual a sua avaliação do governo Fernando Henrique?
MAKSOUD -
Em termos de resultado, se for para considerar o que o mundo pensa do Brasil, o governo do Lula é melhor. E, se for para considerar o que eu penso do Brasil, este e o outro são umas merdas. Tem muita intervenção, coisas que não deveriam existir e que deveriam ter sido mudadas. Por exemplo, a Previdência deveria ser extinta, acabar. Extinta e criada uma Nova Previdência, vamos chamar, privada. O mundo inteiro está fazendo isso, nos moldes do Chile. Até a China comunista estuda o modelo chileno.

FOLHA - O sr. já travou algumas disputas, não? Do governo militar, por exemplo, foi um crítico feroz.
MAKSOUD -
Não, fui crítico de todo mundo. Vamos ser sinceros, não sou um crítico desse ou daquele. Sou independente, e as pessoas não gostam de gente independente. Agora, independência não quer dizer arrogância, não quer dizer soberba, quer dizer independência. Se alguém quiser falar comigo, falo. Se a prostituta dona Joaquina quiser falar comigo, falo com ela. Se o que ela quiser for um troço besta, falo: "Olha, dona, não é comigo". Estou agora no teatro, por exemplo. No teatro, o trabalho da mídia é arrasador. O silêncio é mais arrasador que a palavra falada. Já sentiu um sapo frio em cima de você?

FOLHA - Com o sr. resume a peça?
MAKSOUD -
É uma crônica musical, relacionada com as atividades dos eventos que o Maksoud Plaza teve nestes últimos quase 30 anos e só o Maksoud Plaza possui esse acervo musical mostrado na peça. Ninguém mais. É mostrado numa forma de uma peça teatral musical ["Emoções que o Tempo não Apaga", escrita e dirigida pelo próprio empresário, teve sua temporada interrompida no período de festas e volta a entrar em cartaz no dia 11].

FOLHA - Uma curiosidade: o que aconteceu com a Hidroservice? A empresa foi descontinuada?
MAKSOUD -
Ela não foi descontinuada, o Brasil foi descontinuado. O Brasil parou, não tem serviço, não tem trabalho.

FOLHA - A Hidroservice fechou?
MAKSOUD -
Está aberta. É a empresa holding do grupo. O que eu não aceito mais é trabalho, porque não tem trabalho. Quando vêm me oferecer trabalho, é uma porcaria, ou então tem que consorciar com cinco outras empresas. Vira um trem da alegria, uma bagunça, o diabo, isso eu não quero fazer.

FOLHA - E o seu hotel, como está o Maksoud Plaza? Ele foi símbolo de glamour.
MAKSOUD -
Foi, não. Foi, é e será. Quem fala "foi" se confunde.

domingo, 23 de dezembro de 2007

"Messianismo e o credo petista" por MARCELO O. DANTAS

Messianismo e o credo petista

MARCELO O. DANTAS


O credo petista converteu-se em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante que justifica o injustificável


EM MEADOS do século 17, ainda sob o impacto da expulsão dos sefarditas da península ibérica, muitos judeus passaram a ansiar pela vinda de um messias que pusesse termo aos sofrimentos do exílio, restaurando a autonomia política do povo de Israel. Movido por essa esperança, um obscuro estudioso da cabala, Sabbatai Zevi, deu início a sua pregação milenarista.
Homem de temperamento inconstante, Sabbatai logo se indispôs com os rabinos de Smyrna (atual Turquia), que o expulsaram da cidade. Após 17 anos de insucesso, o estranho místico estava prestes a desistir de tudo. Decidiu então ir a Jerusalém consultar-se com Nathan de Gaza, um jovem profeta. Foi quando teve revelada a natureza divina de sua missão. Ele (Sabbatai) era o tão aguardado messias.
A boa-nova não tardou a empolgar a diáspora judaica. Iniciava-se o ano de 1666, data prevista por alguns para o confronto do redentor (1) com a besta (666). Acompanhado por cortejo digno de um príncipe, o eleito de Iahweh rumou a Istambul, certo de que imporia sua autoridade sobre o sultão. Deu-se o oposto. Feito prisioneiro, Sabbatai esconjurou o martírio, convertendo-se ao islã. Seria o fim de qualquer empreitada sensata, não operasse o messianismo na freqüência do mito. Em lugar de causar perplexidade, a apostasia do messias passou a ser vista por seus adeptos como um "pecado santo". Segundo Abraham Miguel Cardozo, um dos mais destacados teólogos do movimento, o ato paradoxal de Sabbatai Zevi fora um sacrifício voluntário.
Por meio desse mergulho no abismo, ele chegaria ao coração do mal e ali o liqüidaria por dentro, libertando as últimas partículas de luz aprisionadas nas esferas da impureza. Entre os adeptos do sabbatianismo, duas grandes correntes se formaram.
Os moderados acreditavam que somente a alma do messias seria capaz de resistir a um contato tão estreito com as forças do mal. Enquanto não ocorresse o retorno glorioso do ungido à verdadeira fé, o povo de Israel deveria observar os preceitos morais da ortodoxia rabínica, malgrado sua natureza imperfeita e transitória.
Em contraste, a ala radical passou a defender uma modalidade exacerbada de antinomismo: todos os adeptos deveriam imitar o exemplo do messias e descer às profundezas da escuridão. Segundo o sinistro Jacob Frank, somente por meio do pecado seria possível chegar à transcendência: o advento da era messiânica reclamava a superação definitiva da ética mosaica, fundada sobre a dicotomia opressiva dos conceitos de certo e errado, bem e mal.
Semelhante heresia nunca chegou a desaparecer por completo. Suprimidos os últimos remanescentes do movimento, a idéia sabbatiana continuou a existir, em estado latente, no mundo das eternas possibilidades. Até que veio ressurgir, com roupagem secular, no Brasil do mensalão.
Não é segredo que o PT se estruturou como agremiação messiânica. Durante mais de duas décadas, seus militantes se portaram como adeptos de uma seita guerreira destinada a libertar o povo brasileiro de cinco séculos de opressão. Eles eram os puros, os eleitos, os apóstolos do Partido Messias. Mais que uma fantasia revolucionária, sua mensagem anunciava ao país a aproximação do tempo do milagre, em que o mal seria vencido e os bons enfim reinariam.
A inconsistência dessa fábula foi posta em xeque com a chegada do partido ao poder e o abandono do discurso ético que pautara sua ascensão. Curiosamente, em lugar de aceitar o desafio da realidade como estímulo ao pensamento crítico, boa parte da militância optou pelo caminho esquivo da alienação mística. Importava, acima de tudo, preservar a fé na santidade do messias. O credo petista converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável.
Marilena Chaui revelou ao mundo a teleologia da corrupção; Paulo Betti defendeu o caráter soteriológico do pecado; e o solerte Wagner Tiso abriu mão de seu coração de estudante para encavalar o espírito pragmático de Jacob Frank. O pacto com o fisiologismo e a conversão à ortodoxia econômica passaram a ser tratados como pecados santos -alianças temporárias do messias apóstata com o dragão burguês destinadas a acelerar o tempo histórico e facilitar o advento da era escatológica. Nestes tempos messiânicos, até o maná foi reinventado.
"Eles estão chegando!", anuncia-nos o senador Mercadante, enquanto nos bastidores salva o mandato do colega mercador. Hoje, os petistas aceitam tudo. Menos que alguém ouse pensar por conta própria.


MARCELO OTÁVIO DANTAS, 43, formado em ciências econômicas pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), escritor, roteirista e diplomata de carreira, é chefe da Divisão de Assuntos Multilaterais Culturais do Ministério das Relações Exteriores e autor "Podecrer!".

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ode ao Burguês por Mário de Andrade

Ode ao Burguês

Mário Raul de Morais Andrade

Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

terça-feira, 1 de maio de 2007

O governo quer a mídia de joelhos

A singeleza de um furo

Era voz corrente que Octavio Frias de Oliveira não concedia entrevistas. A única de que se tinha notícia recente ocorreu no segundo semestre de 1988, quando o publisher da Folha de S.Paulo reuniu, num fim de semana, em sua granja em São José dos Campos (SP), um grupo de jornalistas para uma conversa gravada - cujo teor, especulava-se, seria utilizado num futuro livro de memórias ou serviria tão-somente como registro histórico de sua trajetória até então.

Fizeram parte daquele grupo de privilegiados entrevistadores Otavio Frias Filho (diretor de Redação da Folha), Carlos Eduardo Lins da Silva (diretor-adjunto de Redação do Valor Econômico), Clóvis Rossi (editorialista e repórter especial da Folha), Boris Casoy (âncora do Jornal da Record) e Leão Serva (diretor do portal iG), todos à época vinculados apenas à Folha. As conversas se deram durante a tarde e a noite de um sábado, e pela manhã e tarde do dia seguinte. Nada de concreto a imprensa soube ou sabe do que foi dito e registrado naquelas tertúlias jornalístico-empresariais.

Passaram-se 15 anos até que o jornalista Jorge Felix, da AOL Notícias <http://noticias.aol.com.br>, fizesse o que nenhum repórter fizera nesse período: no início de outubro, solicitou uma entrevista com Frias, hoje com 91 anos, o último tycoon da imprensa brasileira. Seu pedido foi atendido com inusitada naturalidade – e o repórter, seu editor e a AOL puderam oferecer aos leitores uma matéria jornalística da maior relevância pública. Um furo, com todas as letras.

Eis o relato de Jorge Felix ao Observatório:

"Eu liguei para a secretária dele, dona Vera, e pedi a entrevista. Ela disse que ele não costumava falar, mas que eu enviasse um e-mail com o meu currÍculo resumido, os principais temas da matéria e um pedido formal. Fiz isso, disse que ele era uma personalidade na mídia, principalmente depois da morte de três donos de jornais este ano, e que nós, da AOL, achamos que era importante ouvi-lo neste momento de crise do setor. No dia seguinte, dona Vera me ligou e marcou para segunda-feira, dia 13, mas depois ligou de novo e adiou para o dia 15, quando foi feita a entrevista.

"Não tive nenhuma dificuldade além dessa e não cheguei – para meu espanto – a ter necessidade de procurar alguém para me ajudar nas tratativas. Acho que os filhos [Otavio, Luís e Cristina] nem ficaram sabendo da entrevista.

Cheguei à sede da Folha na hora marcada, 16h, subi e conversamos tomando café. Foi tudo bem descontraído, um bate-papo sobre a mídia. Acredito que ele queria falar, só não tinha sido procurado antes por nenhum outro repórter. Às 17h em ponto eu saí de lá."

A matéria foi publicada em duas partes, nos dias 21 e 22/10. Por sua importância no debate sobre o financiamento público das empresas de mídia, e pela proeminência do personagem, a entrevista de Octavio Frias de Oliveira à AOL e os links originais são reproduzidos a seguir. (Luiz Egypto)

"O governo quer a mídia de joelhos"

Jorge Felix

Publicado originalmente no AOL Notícias, em 21/10/03, em <http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/
2003/10/21/0004.adp
>

Ele é o último barão da imprensa. Neste ano de 2003 viu seus congêneres morrerem: os donos de O Globo, O Dia e Jornal do Brasil. O Estado de S. Paulo há muito é administrado por herdeiros. Aos 91 anos, o jornalista Octavio Frias de Oliveira, há mais de 40 anos à frente da Folha de S. Paulo, é o único dos históricos donos de jornais em atuação no país.

Filho de família rica, descendente dos barões de Itaboraí e Itambi, Octavio Frias de Oliveira teve uma adolescência pobre depois que o pai e um tio quebraram e foi obrigado a empregar-se como office-boy aos 14 anos. Aos 21, no entanto, já era um próspero funcionário público da Receita Federal. Depois, seguiu a tradição da família e fundou um banco, o BNI, mais tarde comprado pelo Bradesco. Foi com o dinheiro de uma aventura, a construção de uma rodoviária em São Paulo, que ele e o sócio Carlos Caldeira compraram a Folha de S.Paulo, em 1962. Com mais de 50 anos, descobriu a carreira de jornalista e transformou seu jornal em um forte concorrente do Estado de S. Paulo, que fazia feroz oposição a seus negócios. De lá para cá, o jornal cresceu, tornou-se um dos mais influentes do país.

Simples, low-profile, "Seu" Frias, como prefere ser chamado, recebe pouca gente no nono andar do prédio da Rua Barão de Limeira. Quem tem esse privilégio nem precisa usar crachá de visitante ou passar pela catraca. Na ampla sala de reunião, anexa ao seu gabinete, mobiliada com mesa com oito cadeiras, poltronas e decorada com capas históricas da Folha, ele concedeu entrevista à AOL por quase uma hora. Lembrou dos colegas donos de jornais mortos neste ano e disse que assiste à maior crise financeira já enfrentada pela imprensa brasileira.

Sobre a operação de socorro financeiro criada pelo governo para sanear as empresas de comunicação com dinheiro do BNDES, Frias disse que é contra. Segundo ele, o chamado Promídia – analogia com o Proer, o programa de socorro aos bancos feito no primeira mandato do presidente Fernando Henrique – é uma estratégia do Palácio do Planalto para comprometer os veículos. "O governo quer a mídia de joelhos", afirmou o dono da Folha.

***

Como o senhor vê a discussão sobre um socorro especial para a mídia por meio de empréstimos concedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?

Octavio Frias de Oliveira – Eu tenho receio. Eu tenho um receio muito grande. Isso tende a interferir. Para falar claramente... [Pausa, olhar perdido] nem sei se deveria dizer isso... [olha no olho no repórter e fala firme] em todo caso vou arriscar: o que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum. Dentro desse princípio é difícil ver essa questão do BNDES. Por que criar um sistema assistencial, preferencial para os jornais, para mídia? Por quê? Se todo o empresariado está endividado, nunca vi uma situação tão difícil em toda a minha vida e estou apenas com 91 anos. Nunca vi uma situação igual. Mas nós vamos sair dela.

O senhor acredita no espetáculo do crescimento?

O.F.O. – Não, não. Isso está mais distante do que se supõe.

O senhor é contra, então, que os jornais recorram a esse socorro oficial?

O.F.O. – Acho lícito que eles recorram, mas devem ter o mesmo tratamento de todos os demais ramos da atividade industrial. Não entendo porque distinguir a mídia.

O senhor certamente teve grandes encontros com personagens do poder. Como foram os presidentes da República como interlocutores?

O.F.O. – O que eu tive relações melhores foi o Fernando Henrique, que foi nosso colaborador por mais de dez anos escrevendo no jornal. Eu sempre me mantive afastado do
poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante porque senão entra numa situação moral difícil. A independência no Brasil é muito mal compreendida ainda. Então não tenho histórias para contar a este respeito porque sempre procurei manter uma distância entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes do país.

O senhor já teve alguma conversa com o presidente Lula?

O.F.O. – Nunca tive nenhuma conversa com ele. Só um incidente que houve aqui na Folha.

Eu gostaria que o senhor contasse a sua versão para este episódio porque o senhor nunca falou e foi um encontro importante com quem está hoje na Presidência da República. Todo o meio jornalístico comentou muito sobre isso, mas pouco se sabe do que realmente ocorreu

O.F.O. – Nós o convidamos para almoçar aqui na Folha [durante a campanha eleitoral], ele veio. Na conversa, o Otavio, meu filho [Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal] perguntou a ele como ele se sentia no que dizia respeito ao preparo para exercer a presidência uma vez que ele não tinha curso superior. Ele não gostou da pergunta. Achou a pergunta impertinente. Não entendi porque tinha respostas facílimas a serem dadas, não? E se levantou da mesa no meio do almoço e saiu. Eu tive que acompanhá-lo até a porta. [Ri] Foi isso. Até hoje não entendi. Depois eu sei que ele mandou recado para esquecermos isto.

E o senhor esqueceu?

O.F.O. – Eu, da minha parte, esqueço. [Ri]

Voltando à questão do BNDES. O jornalista Alberto Dines, do Observatório de Imprensa, chegou a comentar que os jornais noticiaram o anúncio do socorro de uma forma muito tímida. Como o senhor vê essa postura dos jornais? Houve um tratamento privilegiado da mídia para com ela mesma?

O.F.O. – É normal da parte dos jornais. Eu creio que eles pretendem isso [o tratamento especial] e eu sou contrário.

"Nunca vi a mídia
tão endividada como hoje"

Jorge Felix

Publicado originalmente no AOL Notícias, em 21/10/03, em <http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/
aol/2003/10/22/0008.adp
>. No pé desta página, clique em TEXTO ANTERIOR para ler a primeira parte da entrevista de Octavio Frias de Oliveira

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva [ao site AOL Notícias] com Octavio Frias de Oliveira, o último barão da imprensa brasileira faz uma análise sombria da situação econômica do país. O dono do jornal Folha de S. Paulo também fala com admiração de Roberto Marinho, relembra histórias engraçadas de Assis Chateaubriand, o polêmico jornalista que se manteve influente durante décadas ao erguer um conglomerado de jornais, emissoras de rádio e de TV pelo país afora. Além de mencionar repetidas vezes a palavra "independência" ao se referir ao seu jornal, Octavio Frias de Oliveira alerta para as intenções de Nelson Tanure, empresário que é o atual dono do Jornal do Brasil. A seguir a entrevista, concedida à reportagem da AOL, no nono andar do edifício da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo:

Como o senhor analisa para a imprensa a perda, este ano, de empresários como Roberto Marinho (dono das Organizações Globo), Nascimento Brito (ex-proprietário do Jornal do Brasil) e Ari de Carvalho (dono do jornal O Dia). O senhor acredita que o desaparecimento deles muda o cenário da imprensa?

Octavio Frias de Oliveira – Não acredito. Acho que Roberto Marinho tinha uma posição ímpar. Admirava muito o Roberto. Nascimento Brito, menos. Ari de Carvalho... tinha um jornal menor em importância. Eu tinha muito boas relações com o Roberto Marinho. Quase cometo uma indiscrição aqui, contando isso, mas uma vez fomos ao Pará, uma inauguração de uma indústria de alumínio, e voltamos juntos. Na volta sentamos lado a lado no avião. Conversando com ele, lá pelas tantas, ele disse: "Seu Frias, um dia ainda vou fazer um jornal como o seu". Foi o maior elogio que já recebi na minha vida.

E o senhor acha que ele conseguiu?

O.F.O – Tentou fazer. O que caracteriza a Folha é a independência, né? E disso, nós não abrimos mão. A razão maior da existência da Folha é a independência e eu atribuo à independência o sucesso que o jornal tem tido. Somos hoje o maior jornal da América do Sul. No Hemisfério Sul temos uma posição bastante confortável. E isso se deve à independência que a Folha cultiva sempre. O Globo procura ser hoje um jornal independente, mas a situação financeira da Globo hoje é muito difícil. Isso atrapalha muito.

Por que o senhor disse que admirava menos o doutor Nascimento Brito?

O.F.O – Não, menos importante como dono de jornal, quis dizer. Roberto Marinho fez um trabalho fantástico. Construiu, de longe, o grupo de maior expressão no país. Já o Nascimento Brito pegou um jornal já feito, ainda que tenha fortalecido a posição do Jornal do Brasil. Mas acabou mal. O Jornal do Brasil hoje está em posição muito difícil.

Como o senhor analisa o papel do empresário Nelson Tanure [empresário dono de empreiteira que ganhou notoriedade do período Collor, depois de ficar amigo da ex-ministra da Economia, Zélia Cardoso] que tem surpreendido com um fôlego...

O.F.O – Eu tenho para mim que ele quer ser o Chateaubriand moderno [ri]. Eu me dava bem com o Chateaubriand. Uma vez também, eu vinha do Rio, o Chatô sempre sentava no último banco do DC3, daqueles antigos. E no aeroporto Santos Dummont eu entrei e ele estava lá no último banco. "Seu Frias sente-se aqui", falou. Eu não tinha jornal ainda. Acho que foi em 60 e eu comprei a Folha em 62. Conversamos, o avião decolou e imediatamente ele começou a dormir. Fomos voando baixo, como faziam os DC3s antigos e quando chegou aqui em São Bernardo o avião começou a agitar um pouco, a balançar um pouco. O Chatô acordou, olhou para baixo e imediatamente me disse "Seu Frias precisamos organizar uma expedição punitiva contra esses paulistas aqui" [risos]. Ou seja, precisamos tomar o dinheiro deles. Achei engraçado porque foi instantânea a reação.

E o senhor acha que o Tanure quer fazer também um conglomerado?

O.F.O – [Sério] Eu acho, acho. Não conheço o Tanure. Mas acho que sim. O Chatô fez um império que, depois, não resistiu à morte dele. Mas fez um império. Mas lembro do Chatô com as coisas curiosas. O Edmundo Monteiro, o homem dele em São Paulo, me contava algumas passagens. Chatô comprou muitos objetos de arte. Ele comprava viajando pela Europa, telegrafava para o Edmundo e falava que precisava pagar tanto no dia seguinte. Chegou ao extremo de um dia chegar aos Diários Associados e falar: "Edmundo preciso de
dinheiro". E o Edmundo: "O que tem aí seu Chatô é pagar a folha de salários amanhã". E o Chatô falava: "Então você me dá e depois você se vira".

Foi um sonhador irresponsável?

O.F.O – Não, de sonhador, não tinha nada. Era muito prático. Audacioso.

Tem que ter muita audácia para se construir um jornal?

O.F.O – Creio que não.

O senhor fez essa comparação do Nelson Tanure, o que o senhor diria para um empresário que está se aventurando no segmento com essas dificuldades todas?

O.F.O – Ele está querendo comprar a Gazeta Mercantil. Comprou já o JB, então, acho que tem outros objetivos. Não sei, não o conheço.

Mas o que move um empresário a comprar um jornal e o que o senhor diria para ele?

O.F.O – Depende dos objetivos dele. Ele quer exercer influência política ou não? Quer usar essa alavanca para arranjar dinheiro ou não? Depende disso. Se for com esse objetivo já está condenado a não ter grande sucesso, acho eu.

Depois de três anos, como o senhor avalia a sua inusitada sociedade com as Organizações Globo para criação do jornal Valor Econômico?

O.F.O – Muito bem. Nossa relação sempre foi cordial. Nenhum problema maior.

Mas como negócio. O jornal Valor passa por uma grande dificuldade...

O.F.O – Está passando. Nossa expectativa é que o jornal Valor alcance o equilíbrio financeiro no ano que vem. O mais difícil já passou e nós dividimos as dificuldades. Cada um arcou com a sua parte.

O jornal está à venda?

O.F.O – O jornal não está à venda. Nós temos a combinação de admitirmos um sócio, com 30% do capital. Dentro disso têm sido feitas algumas gestões mas até agora, sem
nenhum resultado prático.

Essa questão dos 30% é muito polêmica porque no setor de mídia só se permite este percentual. A lei diz isso porque os donos de jornais nunca querem abrir mão do controle?

O.F.O – É uma questão legal que impede uma participação maior, estrangeira. E eu acho correto. Não sei se interessa ao país ter uma abertura completa da mídia. Não sei se isso é conveniente.

Isso não afasta o capital estrangeiro?

O.F.O – Afasta da atividade de mídia, mas os outros setores estão abertos.

Como o senhor avalia o ensaio das Organizações Globo de entrar no mercado de São Paulo com a compra do jornal Diário de S. Paulo?

O.F.O – Acho um direito sagrado deles. O problema é deles. Graças a Deus não é meu, é deles. Mas acho normal. Nada contra, não.

Falaram que isso tinha arranhado um pouco as relações da sociedade...

O.F.O – De jeito nenhum. É um direito sagrado deles.

Se o senhor trabalhasse no telemarketing da Folha e tivesse que convencer uma pessoa a assinar o jornal, qual argumento o senhor usaria?

O.F.O – A independência do jornal. Tenho um fanatismo pela independência da Folha. Tenho um episódio curioso. Na época da ditadura, acho que no governo Médici, o chefe da Casa Militar, com quem eu tinha certa relação, não me lembro o nome dele, me telefona e diz: "Ô Frias aqui quem fala não é o seu amigo não, é o chefe da Casa Militar Ou você muda esse jornal aí ou nós vamos fechar." Eu mudei. O Cláudio Abramo era nosso diretor de redação. Eu chamei o Cláudio e disse: "Cláudio, vai pra Paris como nosso representante e depois você volta". Chamei o Boris Casoy, que era um homem tido mais como conservador para diretor de redação. Foi o que eu fiz. Depois o Cláudio voltou. Gostava muito do Cláudio, nos ajudou muito aqui, foi um homem muito importante na Folha. Ele veio do Estado, você sabe, né? Também saiu do Estado por causa daquele lado esquerdista dele, em 1964, quando se preparava o movimento revolucionário aqui e o Estado achava que com a direção esquerdista dele não era possível e o demitiram da função. Eu, então, o contratei e foi um passo acertadíssimo que eu dei porque ele ajudou muito. Uma figura muito importante aqui. De uma correção exemplar. Divergíamos politicamente, mas nunca tivemos nenhum atrito. Nunca. Foi sempre corretíssimo, corretíssimo.

O senhor já teve que fazer outras substituições por causa de questões políticas?

O.F.O – Não, só essa.

As pessoas falam muito do seu vigor e do fato de o senhor manter sua rotina até hoje aqui no jornal.

O.F.O – Continuo trabalhando aqui normalmente. Os médicos me dizem "não pare senão você se estrepa". Estão estou aqui todos os dias até oito e meia, nove horas da noite. Se tem almoço, chego uma e meia, se não tem, chego duas e meia, três horas. Tenho meu filho na redação, o Otavio, que é ótimo. E o Luís na parte comercial, que é o presidente da empresa. Graças a Deus são vocações diferentes e não há atrito.

Já que o senhor falou em família, como o senhor analisa a situação do seu principal concorrente, o Estado de S.Paulo, que também passa por uma reestruturação? Como o
senhor avalia esse tipo de administração familiar que caracteriza tanto a mídia brasileira?

O.F.O – Eu procuro fazer aqui uma administração independente de família. Como disse, tenho dois filhos aqui comigo, o resto não se interfere. Aqui é tudo independente de família. Acho que o Estado não fez isso, acho que se arrependeu. Está numa situação hoje extremamente difícil, deve 500 milhões. Estão lutando, estão lutando.

Como o senhor, como jornalista, analisa esses casos na imprensa nacional e internacional de repórteres que mentem, como o Jayson Blair, o caso Kelly, na Inglaterra, e aqui esse episódio do apresentador Gugu Liberato?

O.F.O – Acho muito bom porque é um progresso [o fato de os casos virem a público]. O caso do Gugu é menor, televisão não é uma coisa muito... é complicado. Eu já tive televisão, mas o meu sócio, meu querido amigo Caldeira não gostou. Afinal decidimos vender. Era a maior televisão da ocasião, não me lembro o nome... é Excelsior.

Vamos falar do boom da internet. A Folha entrou nessa onda quase como pioneira, depois assistimos ao estouro da bolha que criou conseqüências para os jornais...

O.F.O – Acho normal. Não nos arrependemos, não. Acho que para o futuro será um negócio mais importante de todos. Estamos satisfeitos. No ano que vem o UOL alcança o equilíbrio. Os resultados são bastante animadores e não nos trazem preocupação maior.

Quem o doutor Frias...

O.F.O – [Interrompe] Eu não sou doutor, o senhor está me dando um título que eu não tenho.

Quem o "Seu" Frias nunca deixa de ler no seu jornal?

O.F.O – Eu leio todo o jornal, todos os dias.

Mas não tem um colunista, um articulista de sua preferência?

O.F.O –Não, leio todos sem distinção. Aqui e o restante da mídia. Leio quatro jornais todos os dia. Leio a Folha, óbvio, leio o Agora, que também é nosso, leio o Valor e o Estado de S.Paulo. Leio o Globo aqui na Folha, quando posso.

Nessa crise toda da mídia, a distância entre os departamentos comerciais e a redação...

O.F.O – [Interrompendo] Aqui é sagrado. Sagrado! Tem um muro de Berlim. Intransponível. A publicidade não interfere no jornal de jeito nenhum.

Mas outro dia, só para citar um exemplo, a Revista da Folha saiu com uma edição especial sobre escolas e quase todos os anunciantes eram instituições educacionais privadas, então ali, para qualquer leitor minimamente...

O.F.O – Esclarecido.

Exato. Percebe-se essa troca de informações...

O.F.O – Entendi. Apenas a redação informou à publicidade que iria fazer um especial de escolas. E as escolas quiseram participar.

O senhor acha que esse é um limite aceitável?

O.F.O – Aceitável não, ideal. Às vezes o comercial chora as mágoas, mas paciência.

Em meio à crise econômica, como o senhor analisa o atual momento para a mídia brasileira?

O.F.O –Nunca vi a mídia tão endividada como hoje. Mas acho que é fruto da situação geral que não é fácil. Não só nacional, como mundial. O mundo atravessa uma crise econômica. Os Estados Unidos beiram uma situação de indecisão. Não se sabe ainda se vai entrar num período de recuperação ou se a recessão se agrava. A Europa vai mal, a Alemanha vai mal, o Japão vai mal. Aqui no Sul, não vou nem falar. E o Brasil não pode ser exceção, vai mal também. Então eu vejo um quadro difícil.

O senhor já vê algum tipo de conseqüência dessa crise econômica para a liberdade de imprensa e para a democracia?

O.F.O – Esse risco ainda não vejo. Acho que vai ser um fim de ano difícil, mas no ano que vem ainda continuará sendo. Talvez um pouco menos difícil, mas ainda difícil. Não vejo um futuro róseo, não, a luta vai continuar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Liberal sem medo

Liberal sem medo
Entrevista: Paulo Guedes
Revista Veja, ed. 1939, 18/01/2006

O economista afirma que o Brasil precisa de mais capitalismo e que a socialdemocracia não tem condições de levar o país à frente

por Lucila Soares


O economista Paulo Guedes, 55 anos, tem sido um crítico feroz da condução da economia em sucessivos governos. Suas previsões sombrias renderam-lhe por um tempo o apelido de Beato Salu, o pregador catastrofista da novela “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, que estava no ar em fevereiro de 1986, quando foi lançado o Plano Cruzado. Vinte anos depois e com suas previsões mais que confirmadas, Guedes continua crítico, mas não se pode chamá-lo de catastrofista. O economista enxerga um horizonte de oportunidades para o Brasil, desde que o país faça as reformas estruturais tão discutidas e pouco encaminhadas. Para que isso seja possível, defende a entrada em campo da liberal-democracia, depois de 20 anos de governos que classifica como social-democratas de matizes variados.

Guedes, PhD em Economia pela Universidade de Chicago, é sócio da administradora de recursos Fiducia e está entre os fundadores do Instituto Millenium, um fórum recém-criado para difundir o ideário e as propostas liberais para o Brasil. Em seu escritório, no Centro do Rio de Janeiro, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja — O senhor se auto-intitula um dos últimos economistas liberais do Brasil. O que é ser um economista liberal?

Guedes — É acreditar que a força motora da civilização é a Grande Sociedade Aberta, que vem sendo construída há pelo menos 2 500 anos. Começou na Grécia, em Atenas. Isto inclui a percepção de que os mercados são a maior máquina de inclusão social já descoberta. O liberal-democrata é o sujeito que compreendeu o processo de formação dessa grande sociedade e sabe que a democracia e os mercados estão nas raízes da civilização ocidental.

Veja — No Brasil, já há algum tempo, atribui-se boa parte dos problemas nacionais a políticas liberais, ou neoliberais. Por quê?

Guedes — Na melhor das hipóteses, devido a uma má leitura da realidade. É irracional dizer que um país que gasta 40% do PIB no setor público tem algo de neoliberal. Porque o Brasil já tem 40 anos de dirigismo: 20 com os militares e 20 com a social-democracia. Aí, quando alguma coisa não vai bem, dizem que a culpa é do liberalismo. É brincadeira. Tivemos a social-democracia populista, com José Sarney, o PMDB e o “tudo pelo social”. A sofisticada, ou punhos de renda, com Fernando Henrique. E a popular agora, com o Lula. A matriz ideológica brasileira não tem um genzinho liberal. Na última eleição presidencial foi a mesma coisa.

Tinha o social-democrata Serra, o social-reformista Ciro, o social-sindicalista Lula, o social-populista Garotinho.

Veja — Mas houve privatizações, abertura do mercado, Lei de Responsabilidade Fiscal, superávit primário....

Guedes — É claro que houve progressos. Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central) fez o câmbio flexível, Sergio Werlang (ex-diretor do BC) criou o sistema de metas inflacionárias, o Palocci garantiu a estabilidade da moeda. Mas nas privatizações, por exemplo, perdeu-se uma chance histórica. Quando começou o governo Fernando Henrique, a União tinha 60 bilhões de dólares em participações nas empresas estatais. E a dívida pública federal também era de 60 bilhões de dólares. Tinha que ter feito um processo radical e acelerado, e matar a dívida. Ou seja, a social-democracia até acerta, mas é um modelo que funciona num ritmo incompatível com as necessidades impostas pelo mundo atual. Levou 20 anos para derrubar a inflação, 20 anos para soltar o câmbio. Isso é intolerável.

Veja — É por isso que o Brasil não cresce?

Guedes — Há quase três décadas o Brasil parou de crescer. A estagnação tem raízes no intervencionismo e no dirigismo lançados pelo governo militar e irrigadas por uma democracia emergente que se perdeu em combates epidérmicos. O centro do problema é o tamanho do Estado e sua voracidade. Porque como o Estado não pára de gastar, o juro acaba ficando muito alto. Isso é incontornável. Não adianta xingar o BC. Isso só se quebra com controle dos gastos públicos. Para ter lugar no mundo globalizado é preciso levar à frente as reformas, e a social-democracia é muito lenta. O mundo não vai nos dar esse tempo. Da mesma forma que a redemocratização devastou as hostes políticas que apoiaram os militares, a socialdemocracia será devastada agora, porque não há como fazer face à globalização sem reformas profundas e ela não tem condições de fazê-las. A mãe de toda a tragédia é o nível de gastos do governo. Todo o resto é epifenômeno. Inclusive a corrupção.

Veja — Por quê?

Guedes — É Karl Marx quem diz o seguinte no clássico “As Lutas de Classe na França”: “O incremento da dívida do Estado interessava diretamente aos que governavam e legislavam através das Câmaras. O déficit do Estado era precisamente o verdadeiro objeto de suas especulações e a fonte principal de seu enriquecimento. As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade parafraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero.” É Marx quem diz que a corrupção sistêmica é filha da escalada de gastos estatais. E essa é uma lição a ser aprendida por nossos sociais-democratas. Não podemos levar 20 anos para fazer as reformas.

Veja — Por que as reformas não andam?

Guedes — Quem estudou um pouquinho de Física sabe que as estrelas que a gente vê à noite não existem mais. São luzes emitidas há bilhões de anos. Então quando se olha o firmamento brasileiro, vê-se a luz de um professor auto-exilado porque há 20 anos lutou meritoriamente contra o regime político. E um sindicalista corajoso, brasileirinho, que enfrentou os cães na porta da fábrica. Eles merecem brilhar no nosso firmamento. Mas são ecos do passado. Essa noite não existe mais, tem coisa nova acontecendo. Não há dúvida de que quem está promovendo a reconstrução econômica em todo o mundo é a liberal-democracia. Desde o pós-guerra. Quem fez a reconstrução econômica da Inglaterra, que tinha se tornado uma nação irrelevante? Lamentavelmente, para desprazer de muita gente, foi uma senhora chamada Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica que liderou a reforma do Estado em seu país na década de 80).

Veja — O senhor fala em social democracia e liberal democracia. Por que não esquerda e direita, simplesmente?

Guedes — Esquerda e direita são rótulos que ainda subsistem em países atrasados, entre os quais eu incluo o Brasil. O socialismo é uma utopia que se tornou irresistível para os intelectuais, apesar de ser um equívoco intelectual completo.
Quem são os economistas socialistas, que deixaram uma herança para a sociedade?
Sobrou só o próprio Marx, como uma grande filósofo. O socialismo, para sua tragédia, virou o ópio dos intelectuais. Virou uma religião. E por quê? Porque cometeu o terrível equívoco de não compreender o que estava acontecendo em matéria econômica. Baseado no desejo de igualdade, de solidariedade, não percebeu o que estava acontecendo do ponto de vista econômica.

Veja — A redução da desigualdade não é necessária?

Guedes — Sim, mas não da forma imaginada pelos socialistas. A alternância desejável é entre a social-democracia e a liberal-democracia. É o liberal-democrata de um lado, o social-democrata de outro, um com um mais ênfase na criação de riqueza, outro com mais ênfase na redistribuição. Mas nenhum dos dois pretendendo desorganizar o sistema de mercado que levou 2500 anos para ser construído. Se uma sociedade está crescendo a 2%, é melhor colocar um liberaldemocrata.
Aí, quando estiver crescendo 6% ao ano, você põe um socialdemocrata, taxa um pouco mais aqui para financiar projetos sociais — bolsa família contra a pobreza absoluta, bolsa escola pela igualdade de oportunidades, seguro-desemprego, e distribui um pouquinho para quem ficou para trás. Por isso acredito que os próximos 20 anos serão da liberal-democracia no Brasil.

Veja — Estamos falando já das eleições deste ano?

Guedes — Espero que sim. Existe um princípio chamado pelos biólogos evolucionistas de Lei de Gause, que é a disputa de nichos ecológicos por espécies semelhantes. Costuma ser uma luta feroz. Eu não gostaria que a disputa política que vem aí seja apenas uma manifestação da Lei de Gause, com o PSDB dizendo “você é corrupto”, e o PT respondendo que “você é que é”. Como liberal-democrata eu assisto a isso com um certo prazer, como brasileiro não. Espero que surja um candidato liberal-democrata, com uma plataforma que se proponha a atacar os problemas hoje disfarçados pelo fechamento cognitivo da social-democracia. O Estado gasta 100 bilhões de reais com folha de pagamento do funcionalismo, 150 bilhões com aposentadorias, 150 bilhões com juros. E aí sobram só 10 bilhões para o Bolsa Família. O eleitor está ávido por mudança. E já mostrou no referendo sobre o desarmamento que não aceita mais ser manipulado.

Veja — O senhor foi um dos economistas não-petistas que deu ao governo Lula o benefício da dúvida. Qual sua avaliação hoje?

Guedes — Antes da posse de Lula eu dizia que não haveria um desastre. Mas também dizia que não havia o menor perigo de dar certo. Hoje digo que Lula mostrou que não é o Hugo Chávez, não é o Fidel Castro e não é o Evo Morales.
Pedir mais do que isso dele não é sensato. Ele revelou grande percepção e sabedoria ao fazer um pouco mais do mesmo que ele tinha visto. Um pouco mais de gasto social, um BC se aprimorando o tempo inteiro. O BC brasileiro é de Primeiro Mundo. Salvou a social-democracia brasileira. E é o mais apedrejado, justamente por ser o único que cumpriu aquilo a que se propôs: manteve o poder de compra dos salários, das aposentadorias, da poupança pública. Fez a parte dele.

Veja — Qual o principal erro dos últimos governos no Brasil?

Guedes — Foi não ter percebido as oportunidades do mundo globalizado. O discurso é aparentemente moderno, fala-se em choque de capitalismo e outras coisas, mas nós não mergulhamos de cabeça no capitalismo. Usa-se um discurso moderno para atrair dinheiro externo. Mas persiste uma visão de que a globalização é negativa. E não é.

Veja — Mas há perdedores na globalização.

Guedes — É questão de ponto-de-vista. Quando há maior penetração de comércio global, há uma tendência à equalização dos salários. Então o americano ou o brasileiro que trabalham numa montadora vão ganhar menos, mas o salário do chinês que passa a ter emprego numa montadora na China vai subir. Quem olha com uma visão local diz que o capitalismo está destruindo salários e empregos. Mas quem está olhando o mundo fala assim: o salário do americano caiu 30 dólares e subiu um dólar o salário de um milhão de chineses. O capitalismo não está espoliando. Está redistribuindo. Só que quem está no Brasil assiste o salário caindo
e o juro lá em cima e diz: a culpa é do neoliberalismo. Mas se você perguntar a um chinês o que ele acha do neoliberalismo ele vai responder, “neolibelalismo sim, muito bom”.

Veja — O difícil é lidar com as reações locais.

Guedes — Esse é outro desafio. É claro que regionalmente está havendo impactos colossais. Os australianos espancam brasileiro, os franceses batem nos imigrantes, os skinhead alemães surram os turcos. Estamos assistindo a cenas explícitas de barbárie provocadas pelos impactos locais da nova ordem. Essa arbitragem global que comprime os salários da parte mais avançada e puxa pra cima o da China, da Rússia, da Polônia, da Hungria, apavora o francês, o alemão. Se além disso tem as correntes migratórias, ou seja, se além do sujeito perder o emprego porque a
fábrica mudou para a Índia, começa a chegar uma porção de turco e marroquino, é importante que se tenha isenção para garantir que a civilização continue. Porque não vale a pena escaparmos da armadilha social-democrata e cairmos no nacionalsocialismo, no Le Pen (Jean-Marie Le Pen, líder da extrema-direita francesa), no fechamento de fronteiras, na indústria nacional.

Veja — Que futuro se vislumbra para o mundo diante de tantos desafios?

Guedes — Estamos no meio do deslocamento de placas tectônicas, é uma mudança brutal. Mas a economia mundial vai bem. Até pouco tempo tínhamos apenas duas turbinas no mundo — os Estados Unidos e a China. Agora temos novos atores muito dinâmicos. A Rússia, o Leste europeu, a Índia. O Japão começou a sair do estado cataléptico, e mesmo a Europa, que está naquele processo de euroesclerose há anos, começa a se flexibilizar, lentamente mas começa. Esse é o lado bom. O lado ruim é o risco de ter tudo sincronizado, porque o capitalismo é um mecanismo humano. Ou seja, falha toda hora. E, quando falha, é melhor que não esteja todo mundo sincronizado, porque aí se estabelecem mecanismos de compensação que impedem que todos afundem junto.

Veja — E do Brasil? O que se pode esperar?

Guedes — O potencial é enorme. O Brasil está tão longe da fronteira de produção, com 50 milhões de pessoas fora do mercado, excesso de impostos, enrijecimento institucional, disfunções burocráticas que, se desregulamentar, o país cresce 12% ao ano durante dez anos seguidos antes de parar pra pensar. A riqueza de um país é construída em cima do capital educacional de seus indivíduos, do capital organizacional de suas empresas, do capital institucional de sua classe política, e da ação descentralizada do Estado atacando os problemas de desigualdades de oportunidades, desigualdades educacionais, desigualdades de renda. É nisso que o Brasil tem que apostar.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Pôr fim ao governo Lula

ROBERTO MANGABEIRA UNGER

Pôr fim ao governo Lula

Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.
Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.
Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.
Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.
Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.
Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.
Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.
Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.
Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.
Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas.


Roberto Mangabeira Unger escreve às terças-feiras nesta coluna.
www.law.harvard.edu/unger