terça-feira, 16 de outubro de 2007

Descompostura de Antero de Quental em Antonio Castilho

“Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais cinqüenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador nem respeitador”.

Trata-se do poeta português Antero de Quental (1842-1891) ao passar uma descompostura no também poeta Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875). Aquele estava seduzido pela poesia realista; este outro era um monumento da literatura portuguesa, apegado à estética romântica. Embora Castilho fosse cego, pretendia-se uma espécie de observatório da literatura portuguesa e juiz dos vivos e dos mortos. E mereceu, então, de Quental aquelas palavras um tanto azedas, mas brilhantes. Afinal, quem está impedido de ter 50 anos a menos de idade deve buscar, ao menos, ter 50 a mais de reflexão.

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